Bela cidade das Gerais!

Bela cidade das Gerais!
Imagem feita por Sotnas Odlabu em São João Del Rei MG em nov de 2016

E AQUI, OS QUE POR CÁ VIERAM UMA, E CONTINUAM VOLTANDO OUTRAS VEZES!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Das lições da infância, nenhum trauma, ainda que jamais esquecidas!

Imagem feita em Caxambu-MG, no parque das Águas, janeiro 2014, por Sotnas Odlabu.


Como podem observar a pessoa que na imagem aparece, faz parte da composição, sendo assim os  elementos humanos que aqui aparecem, caso desejem eu retiro a imagem, sem problema, caso contrário, desde já, obrigado!   



Há algumas décadas atrás, eu era um garoto, e como qualquer garoto, eu tinha alguns amigos. Morávamos em um bairro afastado do centro de São Paulo. Certo dia após um convite deste amigo meu, eu e meu irmão fomos brincar na casa dele. A mãe deste meu amigo era costureira e trabalhava em um dos cômodos da casa deles. E lá estávamos nós brincando, não me recordo do quê, apenas sei que ela deixava que brincássemos ali para que ela pudesse trabalhar enquanto nos observava para que nada de desagradável acontecesse, ou algo que pudesse causar danos a algo, ou alguém.  Enquanto ela fazia o seu trabalho de costureira, nós, vez por outra passávamos correndo pela sala em que ela trabalhava, e havia as sobras dos cortes por todo o ambiente, bem como linhas e elásticos.
E foi em uma destas passagens pelo local de trabalho da mãe do meu amigo que eu, um menino que na época devia ter uns sete anos, reparei no chão por entre os retalhos de tecido um pequeno pedaço de elástico.
Não era um pedaço grande, devia ter no máximo uns vinte centímetros, e ao avistar o elástico ele se abaixou e pegou e saiu correndo e dizendo olha o que eu encontrei, exibindo o brinquedo “encontrado” aos amigos. Logo em seguida guardou o achado no bolso e continuaram brincando até o fim da tarde, quando por recomendação da minha mãe eu devia ir para casa para banhar-se e aguardar o momento de jantar.
Aquele dia parecia deveras proveitoso, assim pensava aquele menino quando ao final da tarde se encaminhava para sua casa, brincou a tarde inteira com os amigos e o irmão, e ainda havia encontrado um pedaço de elástico.
Espere um momento. Antes devo explicar o meu contentamento pelo que “encontrei”.
Naquela época, crianças moradoras da periferia de São Paulo inventavam um monte de brincadeiras, entre tantas, havia uma que hoje não vejo com a mesma alegria de épocas passadas. Nós costumávamos pegar aqueles elásticos de prender dinheiro, e também os palitos de fósforos que encontrávamos pelo chão, que eram dobrados ao meio, e devo dizer que os melhores eram aqueles que quando dobrado eles não se separavam, desfiava, mas não se faziam em dois.
E com os palitos dobrados e o elástico apoiado no dedo polegar e no indicador tínhamos um estilingue, e naqueles anos o bairro em que vivíamos não era tão povoado como hoje, e alguns moradores criavam porcos e galinhas, e por este motivo havia também muitas moscas, e estas é que eram nossas vítimas. É isso, atirávamos os palitos dobrados nas moscas, fazíamos uma espécie de torneio para ver quem fazia mais moscas deixarem de existir, eca. É verdade, não era uma brincadeira nem um pouco higiênica, mas, uma criança na sua simples vontade de brincar sempre encontra uma forma de ocupar o tempo ocioso e, é nestes momentos sempre surgem algumas traquinagens!
E voltando ao garoto que era e o meu achado, eu estava aguardando a hora do jantar e enquanto isso, a traquinagem imperativa me fez testar o novo “brinquedo”, e lá estava eu abreviando a já tão breve vida de algumas moscas, quando de repente vi minha mãe parada na minha frente, e quando meus olhos encontraram com os dela, ela me fez uma pergunta.
Aonde foi que você conseguiu isto?
Eu, um filho obediente e, acostumado a sempre dizer a verdade, sequer hesitei em responder que o meu novo brinquedo havia sido encontrado no chão da sala da costureira.
Após dizer isto eu já me preparava para dar fim a mais uma desavisada mosca, e sem saber que havia dado a resposta errada, pois minha mãe com um tapa desfez minha mira, e foi naquele momento, após ouvir o estalo da sandália nada macia de minha mãe no meu braço eu tive o entendimento que estava encrencado.  Pois, logo a seguir outra estampada da sola da sandália acompanhada de outra pergunta e, esta era deveras mais difícil responder!
Quem foi que te deu este elástico?    
 E como sempre eu gostava de ser verdadeiro, disse já iniciando um sonoro choro, que ninguém me havia dado o elástico, e que eu havia achado no chão da sala da costureira e, aumentei o som do choro logo que recebi a terceira estampada daquela sandália tão resistente que os locais mais macios dos meus braços e pernas, eu creio que por mais de um par de anos. A esta altura o brinquedo já havia sido confiscado e o seguimento do interrogatório veio acompanhado de outras doloridas chineladas, e, mais daquela tão sem resposta e odiada pergunta, certamente as minhas respostas não eram as que ela, minha mãe esperava ouvir, bem ao menos naquele instante tão dolorido!
Você se esqueceu do que eu e teu pai sempre falamos aqui dentro de casa para você e seu irmão, que não se deve pegar nada que não seja seu sem que alguém lhe ofereça. E se você pegou mesmo este elástico, aonde você diz, não é achado, pois estava na casa da costureira, e se estava, a ela pertence, e se ela não lhe ofereceu, você roubou, e isso nós não fazemos, somos pobres, mas, jamais roubamos!
E junto a este discurso, o potente som do meu choro de menino desesperado, vez por outra aumentava o volume, na tentativa de demonstrar que as estampadas da sandália, além de doridas já estavam me deixando cheio de pegadas e não somente por saber que ia ficar sem o brinquedo, mas também por ouvir além das perguntas, e do som do encontro daquela malvada sandália com meus braços e pernas, acreditem, ela minha mãe após ouvir o choro em volume mais alto, me pedia para calar a boca dizendo, engole o choro, engole o choro. E isto não era tudo, sim, tinha mais, ao fim da explicação de que não foi um achado, ela me fez outra recomendação dolorosamente expressa, pois a cada dolorida chinelada, uma frase era dita e assim se segui, e entre soluços, e, as marcantes dores, eu tive a certeza, de que aquele dia, eu jamais esqueceria.
E com os braços e pernas parecendo pagina de jornal, todo estampado com o formato as sola da sandália da minha querida, porém naquele momento deveras zangada mãe, eu fui em direção à porta. Eu ainda soluçava e meus olhos alagados de lágrimas que fui forçado a fazer verter não me deixavam enxergar o caminho que devia percorrer direito, ainda assim caminhei para a rua. E fui descendo a ladeira pela rua de terra, aqueles quase quinhentos metros foram caminhados em total transe, ia tão absorto em meus pensamentos, na dor que sentia e na vergonha que com certeza iria enfrentar por muitos dias, bem como no pedido de desculpa que deveria fazer a bondosa senhora, dona do pretenso achado!
Tão distraído caminhava eu que somente percebi que já havia chegado ao destino quando ouvi a voz da senhora me perguntando o motivo de eu estar ali, já anoitecendo, diante dela, e chorando.
Sem que eu pudesse me conter reiniciei um choramingo, e não era pela dor da surra, mas, por saber que o meu novo “brinquedo” já não era mais meu!
E foi naquele momento que iniciei meu pedido de desculpas aquela bondosa senhora, pedido e explicação sobre o pedido estes que saíram intercaladas por aquele que já se tornava deveras irritante, soluçar.
E as palavras ditas entre os soluços que eram dominantes, com medo e vergonha eu iniciei meu pedido de perdão, não por medo da costureira, mas por imaginar ter aranhado a amizade das duas famílias, pois eu sabia que a costureira agia da mesma maneira que agiu minha mãe. Senhora, eu peço perdão por isto que fiz. Eu iniciei dizendo para a costureira.  A minha mãe me mandou vir devolver isso, e estiquei ao braço e abri a mão e expus a ela o motivo que até sua casa me levou já anoitecendo. Isto eu peguei no chão da sua casa quando brincava, ela me mandou devolver e lhe dizer que não foi achado, e tão pouco me pertence, pois não me foi oferecido, e me pediu para pedir perdão por ter pegado o que lhe pertence, e senhora, ela aguarda que, eu retorne com a sua resposta se me perdoa, ou não.
A costureira ficou entristecida pelo meu estado, mas eu creio que como mãe que era também, ela não devia desmerecer a autoridade da minha mãe. Ela pensou um breve instante, em seguida me disse que não era necessário devolver, ela contou que havia percebido quando eu peguei, e sabia para o que seria usado, pois, os filhos dela também faziam o mesmo. Ela me fez estreitar os olhos e distender minha boca quase até as orelhas de alegria ao dizer ainda que, eu estava perdoado, e eu devia prometer que nunca mais repetiria reprovado ato, para não levar outra surra parecida, disse ainda que não precisava que a minha mãe me castigasse daquele jeito por aquilo, mas, que eu não devia me preocupar e nem ficar magoado com a minha mãe foi desta maneira que minha mãe aprendeu, e, sabemos que somente ensinamos o que sabemos, e quase sempre da mesma maneira que aprendemos e para minha dorida tristeza eu aprendi da mesma maneira. Não vou negar que na época fiquei chateado, pois eu fiquei deveras chateado, mas, hoje eu entendo todas as suras que me foram aplicadas, olhando para trás, vendo como me comporto hoje, eu até sou capaz de agradecer as marcas das sandálias e cintos que meus pais me tatuavam semana sim, semana não, nossa, isso já são deveras saudades, sim, mas é também a consciência de que foram de grande valia aquelas surras!  E naquele momento eu, o menino me lembrei das palavras ditas por minha mãe. E sempre após a dolorida aplicação daquela “educação”, (risos) sim, se no passado eu chorei, hoje vejo que tantas lágrimas vertidas não foram em vão, pois hoje me permitem lembrar e sorrir!
Um dia você vai me agradecer por estas chineladas, você é meu filho, e eu prefiro que seja eu a surrar você hoje, pois não quero que amanhã um estranho faça isso, filho meu nasceu para ser gente e não para apanhar na rua de estranhos!
A sua mãe gosta muito de você, e por isso está ensinando como deve ser, e não fique zangado com ela. Vá e diga a ela que nossa amizade não vai se interromper por uma bobagem destas e não é necessário impedir você de vir cá, e que você está perdoado e pode vir brincar sempre com os meus filhos, pare de chorar e, leve o seu pedaço de elástico. E após me dar um abraço e um beijo recomendou que eu dissesse para minha mãe que agora ela realmente havia me presenteado com o causador daquela confusão. Ande, vá para casa, que já está escurecendo!
Deveras muito bondosa, sim, era uma senhora muito bondosa. Onde quer que esteja ela, eu desejo que esteja feliz!  
Quantas vezes minha mãe levava eu, meu irmão e minha irmã na casa dela e, após uma breve conversa entre elas, a bondosa senhora estava anotando nossas medidas e após alguns dias lá estávamos nós, experimentando novas vestimentas, bons tempos que somente me dói lembrar é das alfinetadas eu que levava algumas vezes por não ficar devidamente quieto, sim, eram bons tempos!
Ah, enfim foi assim, ela como uma fada, a bondosa costureira me fez retornar com o antes achado, e agora presenteado e, bem, as chineladas não iam voltar atrás, ou serem retiradas, mas desta vez eu esperava não ser surrado, por retornar com o presente, doado!
 Pois é, até aquele dia eu ainda não fazia ideia o quão valorosas foram todas aquelas surras em meu viver, eu ainda não havia ouvido com atenção para perceber o quanto aquelas palavras ditas por minha mãe me fariam se transformar em um ser justo, claro que foi de um modo dolorido, mas, é como dizem, há males que nos vem para o bem! 
E desde aquela época este menino não esqueceu os ensinamentos dos pais. Ser pobre não é vergonhoso, andar com uma roupa velha, porém limpa não vai fazer com que lhe apontem na rua, mas se você rouba, não importa como você se veste, pois sempre alguém na multidão vai gritar é ladrão, e, isto sim é uma deveras desonra!
                                          E nos tempos atuais, alguns pais ensinam aos filhos que devem vencer sempre, que respeito se consegue quando se tem muito dinheiro, e que ser pobre é um pecado, enfim, ensinam aos filhos uma maneira de se tornarem egoístas, preocupados com o próprio umbigo, e criam filhos que sequer sabem fazer amigos, pois não respeitam nem a si próprios!
E assim percebi que, derramar aquelas e outras lágrimas, não por livre querer, mas, o calor delas me escorrendo pelo rosto, eu ainda hoje posso sentir, bem como ouvir as palavras proferidas por minha mãe, e que me fizeram entender o real valor de muitas coisas, e da vida, que é muito mais importante que tudo que conheço sobre esta terra!

                                                             Sotnas Odlabu 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Apenas, momentos deste meu viver...

Imagem feita em Campos do Jordão, junho de 2013 por Sotnas Odlabu. 




Quando estou a caminhar pelas ruas, observo as poucas árvores que temos na cidade. E nestes momentos vejo tantos detalhes em volta. Algumas árvores plantadas naqueles tão diminutos espaços são de tamanho desproporcional para o espaço em que estão assentadas. Enquanto outras parecem que entendem que seria melhor crescer até que sua sombra envolva o pequeno pedaço de terra que lhe foi oferecido, porém na época da florada muitas destas pequenas são as que exalam com maior vigor seus olores.
E isto é fantástico, a natureza em sua simplicidade sempre a me encantar. Apesar de que algumas exalem somente o olor das folhas, ainda assim posso admirar as variedades de belas folhas e flores que mesmo caídas ao chão, até serem pisoteadas, permanecem belas até que desapareçam secas pelo passar dos dias, bem, é como tudo que existe e vive neste planeta, cedo ou tarde deixa de viver. Embora alguns nem queiram deixar de estarem vivos, outros fazem de tudo para que sua partida desta vida seja deveras rápido, e assim cá pouco tempo fica após a chegada, entretanto, eu, sigo sempre querendo por cá estar!
E ainda que cheio de saudades, estes momentos deste meu viver são intensos e, gosto quando acontece por vezes quando estou a caminhar pelas ruas, e ao passar na frente de algumas residências em horário de preparo das refeições, de sentir cheiros da infância. Ah estes cheiros, que sempre me trazem tantas lembranças, boas e alegres lembranças de quando era criança, é assim como os olores perfumados das árvores nas calçadas. São emoções tal que, logo percebo os olhos em ação de vazantes, pois teimosas lágrimas de alegria emotiva insistem em ocupar espaços destinados ao campo visual. Não é fácil disfarçar certas emoções, mas, também não posso ser condenado por ainda ter em mim um pouco de sensibilidade ou, sei lá, eu creio que tenho direito de me emocionar deveras com os aromas da infância, talvez seja por eu jamais ter deixado de me relacionar com esta parcela humana, destemida e tão crente, e que quase sempre com a mesma sinceridade dirigiu meu viver desde o inicio desta minha jornada, a criança, que ainda sou! E nos dias atuais tenho percebido que a sensibilidade não diminuiu, ao contrário, é perceptível um grau maior, pois as vazantes que embaçam a visão não necessitam de apelos deveras dramáticos, e isto me fez entender o motivo pelo qual as pessoas com mais idade que meus pais quando eu era criança eles traziam consigo sempre lenços, era um acessório que não faltava nos bolsos, podia não ter carteira, mas o lenço lá estava!
Ainda assim prezo este sentimento deveras intenso e bom, e sou grato por ainda sentir, e poder lembrar, pois é somente o que nos sobram, as belas e intensas lembranças, lembranças de toda a vida, e principalmente dos vários olores da nossa infância alegremente vivida!   

Sotnas Odlabu

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